Desordem é a erupção de um vulcão feminino: e espalha sua lava, no texto propositadamente estilhaçado, como suas imagens, não só retrato íntimo de uma mulher, ou de todas as mulheres, como da era contemporânea, com sua riqueza, sua profusão onírica de informação, seus flashes de memória, suas descargas de esperanças, de verdades, amores e frustrações.
Ana Cristina Joaquim se propõe em livro a rasgar em infinitos pedaços o cotidiano, o pensamento, a emoção, e ao mesmo tempo colá-los com palavras e imagens, num caldeirão de poesia em que a mágica é sair do outro lado com a experiência da vida.
Yates, Helberto Helder, astronautas soviéticos, a mulher aos 13 anos, a “onça fora da selva”, Janis Joplin e as rodas da bicicleta. A posição da mulher sobre o homem, a mulher e a mulher diante do homem.
Poesia mesclada a fragmentos de memória, ideias, impressões, referências científicas como num ensaio acadêmico, ou um delírio borgiano: tudo forma um conjunto ao mesmo tempo caótico e esclarecedor.
Um fluxo de pensamento em que a vida se mistura numa infinita multiplicidade, e que ao mesmo tempo, paradoxalmente, forma uma figura só: a da mulher, unívoca, integral.
A beleza da vida está toda em Desordem, para que possamos não admirá-la, mas vivê-la nós mesmos, como loucura, ou salvação.
Diz a autora:
“Trata-se de um pacto que se estabelece com o leitor: provocá-lo no sentido de que as colagens visuais, textuais, bem como os textos não versificados, sejam recepcionados tal como tradicionalmente se condiciona o universo da lírica, a um só tempo contendo as suas diversas (re)significações ao longo da história e as extrapolando na medida de um gesto de atravessamento de fronteiras. O centro (se houver…) deve ser, então, entendido conceitualmente, muito embora haja a evidência temática de uma escrita que se faz a partir da experiência fêmea, solitária e comunal, como não poderia deixar de ser”.
A AUTORA
Ana Cristina Joaquim nasceu na cidade de São Paulo em 1984. Possui graduação em Letras pela Universidade de São Paulo (2009), em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu (2007), mestrado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (2011, CNPq), doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo com estágio na Universidade Nova de Lisboa (2016, Capes), pós-doutorado em Teoria Literária pela Universidade Estadual de Campinas com estágio na Universidade do Porto (2020, FAPESP), onde desenvolve seu segundo projeto de pós-doc (CNPq). Organizou três volumes da antologia de poesia feminina Anamorfoses (SP-Annablume, 2014; SP-Lume, 2016; SP-Córrego, 2018). Como poeta publicou Polifemo (SP-Córrego, 2015), Gama Cromática (à maneira de Peter Greenaway) (SP-Córrego, 2016) e Whatsapp p/ Bitches (Lisboa, Poesia Incompleta/Douda Correria, 2021).
EXCERTO
Este homem é uma freira.
Sabe que a luxúria é uma desordem bruta e bela
a dobrar sortilégios por dentro do milagre da nossa cronologia.
Sua devoção é uma ferida aberta sobre a pele do meu pescoço,
meu dorso tatuado pela fúria da vertigem,
uma flor selvagem de perfume invisível, silencioso.
Este homem é uma freira,
uma onça,
uma tarântula.
Um cavalo elegante encharcado pelas tempestades tropicais (como eu).
Este homem me disse que não sabe quantas vezes ainda
terá de morrer para ressuscitar com o corpo coberto de sangue.
Carrego um convento dentro de mim.